Desde o começo de sua carreira Gustavo Franco destacou- se como a voz jovem da economia brasileira, seja atuando na linha de frente com o governo seja na análise dos meandros e revezes que o País enfrentou nas últimas três décadas. Ex-presidente do Banco Central do Brasil e secretário de política econômica do Ministério da Fazenda do governo de Fernando Henrique Cardoso, em que cuidou da delicada taxa cambial, o economista trilhou uma carreira de sucesso que lhe garantiu um espaço sem precedentes também no mundo empresarial e das finanças.
Bacharel e mestre em Economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D pela Universidade de Harvard, título que conquistou em 1986, ele foi professor e pesquisador da PUC-Rio durante sete anos. Em seguida, atuou no serviço público: de 1993 a 1999 foi secretário de política econômica (adjunto) do Ministério da Fazenda, diretor de assuntos internacionais e presidente do Banco Central do Brasil. Participou então com destaque na formulação, operacionalização e administração do Plano Real, afastou-se e após um ano sabático, de volta a PUC-Rio em 1999, fundou a Rio Bravo Investimentos, em 2000. Uma grife de investimentos, a empresa de serviços financeiros é onde ele concentra sua atuação profissional atualmente.
“O governo tem a ilusão de estar fazendo o bem ao gastar mais e acaba prejudicando o setor privado, sobretudo o pequeno empresário “
No mundo corporativo, o economista ainda participa de diversos conselhos de administração e escreve regularmente em jornais e revistas de circulação nacional. Com 12 livros publicados e artigos, constantemente disponíveis em sua homepage (www.econ. puc-rio.br/gfranco), Gustavo Franco lançou “Cartas a um jovem economista”, pela Elsevier Editora. A obra faz parte da Série Cartas, sucesso de crítica e de público e é a síntese de experiências de um economista de renome para aspirantes e profissionais, com ensinamentos, truques e dicas práticas sobre esse universo e idioma, confuso por vezes, mas que atinge a vida dos brasileiros todos os dias. Por meio de capítulos que remetem à rotina em Brasília, às polêmicas e ao contexto global e de crises, Franco discorre sobre as mazelas da macro e microeconomia, com títulos sugestivos como “Os dois raptos da deusa Clio” e “A mãe de todas as polêmicas”.
Na obra, ele ainda cita como ponto de inflexão da economia quando Adam Smith publicou “A Riqueza das Nações”, em 1776, que trouxe a revelação de que a soma de comportamentos egoístas pode ser o melhor caminho para o bemestar coletivo.
Pensamento nada incomum para um crítico assíduo dos gastos públicos do atual governo e que já declarou a necessidade de uma espécie de avaliação da solidez e da consistência da política econômica pelo mercado, em tempo real, sem espaço para erros e manobras, comuns antes da era da informação e do imediatismo propiciado pela internet. “Com a globalização, a movimentação de capitais serve como um plebiscito contínuo. Isso acaba levando o governo a fazer as coisas certas. Posso até afirmar que algumas coisas feitas pelo presidente Lula não foram feitas por convicção, mas por causa desse entorno”, declarou a uma revista de São Paulo.
Conceitos da economia que ele aprendeu jovem os maturou, e hoje os coloca à disposição da sociedade brasileira, por meio de suas aulas, consultoria, livros ou entrevistas.
Oportunidades na qual ele não economiza o olhar astuto sobre impactos da política de juros, o custo do spread bancário para todas as cadeias de negócios, responsabilidade fiscal, orçamento público e o papel individual dos empresários no questionamento desses temas.
A seguir você terá a oportunidade de ler uma entrevista que Gustavo cedeu à Gestão&Negócios. Acompanhe e tome uma aula de economia desse mestre que tem tanto a nos ensinar.
Gestão&Negócios: Quais são as ameaças e os desafios que o atual governo deve enfrentar para garantir a estabilidade da economia no País?
Gustavo Franco: A principal ameaça doméstica é o descontrole nas contas do governo, pois é este o caminho para a inflação e/ou para juros maiores. O governo tem a ilusão de estar fazendo o bem ao gastar mais e acaba prejudicando o setor privado, sobretudo o pequeno empresário. No plano internacional, a situação da Europa é delicada, pode haver tremores, ao passo que com os EUA a expectativa é positiva.
G&N: O que o pequeno empresário brasileiro precisa saber sobre a economia do País para a gestão de seus negócios?
Gustavo: Precisa ler jornal e ter opinião sobre as coisas, impostos, gastos, juros e manifestar-se sobre as coisas que os desagradam.
G&N: Na atual conjuntura, de que formas as ações do Banco Central influenciam as empresas de todo o País, especialmente as de médio e pequeno porte?
Gustavo: As ações do BC afetam a moeda, o crédito e os bancos de forma genérica, dificilmente de forma seletiva.
G&N: Há riscos de o Brasil voltar a sofrer recessão e descontrole inflacionário?
Gustavo: Não creio, mas exclusivamente porque o dever de quem está no BC é sempre acreditar.
G&N: Quais os efeitos da atual taxa Selic para o varejo, já que incide sobre o crédito pessoal?
Gustavo: As variações da Selic são muito menos importantes que no passado. Importante mesmo foi ela se aproximar de 10%. Nos próximos anos seguramente vamos ver a Selic se estabilizando mais próxima de 5% que de 10%, e será muito bom para o Brasil. Só é preciso que as finanças públicas melhorem, inclusive para que se reduzam os impostos que incidem sobre o crédito e que fazem crescer o spread.
G&N: Quais foram os principais avanços da economia no País nos últimos 15 anos e quais podem ser considerados os maiores retrocessos?
Gustavo: Os maiores avanços tiveram a ver com a estabilidade e as reformas, aí incluídas com destaque a privatização e a responsabilidade fiscal. O retrocesso foi a interrupção das reformas, o que fez parecer que caíram do céu as coisas boas que aconteceram com a economia nos anos que se seguiram.
G&N: Como o senhor avalia o sistema tributário brasileiro hoje?
Gustavo: Muito eficiente em cobrar, mas muito complexo e até mesmo abusivo, seja no formato, seja na postura da autoridade tributária.
G&N: A presidente e sua equipe lhe parece adotar uma linha promissora para a política tributária? Gustavo: Até agora não vi nada, senão sinais de fumaça sem a menor importância.
G&N: Durante a oficialização de sua candidatura, Dilma Rousseff disse que uma reforma tributária parece inevitável. É possível?
Gustavo: Não acredito. Acho que quanto menos abrangente mais fácil, ou seja, passar uma coisa de cada vez é infinitamente mais fácil que agrupar em grandes pacotes.
G&N: Quais são os pontos que necessitariam de revisão urgente no sistema tributário nacional, antes de falar em reforma?
Gustavo: Em minha opinião, os impostos e contribuições sobre o faturamento, bem como os encargos sobre a folha de pagamentos e sobre o crédito, são frentes óbvias de ação.
G&N: As análises feitas pelos parlamentares e os projetos de lei trazem uma perspectiva ao cidadão brasileiro?
Gustavo:O Congresso olha apenas para o lado do gasto, e na confecção do orçamento, parece olhar apenas para o gasto, como se não tivesse nada que ver com os impostos. Está errado. Nossa sistemática de orçamento reproduz continuamente o excesso de gastos e a pressão por mais receita tributária.
G&N: Existem alternativas para reduzir o spread brasileiro, uma das principais queixas do empresariado, especialmente as médias e pequenas empresas que estão aprendendo a gerir o crédito em ascensão em 2011?
Gustavo: Claro que sim. O spread tem a ver com tributos sobre os bancos e especialmente com expedientes como depósitos compulsórios e direcionamentos de crédito, que funcionam como se fossem impostos. O spread revela o fato de que o governo é “sócio” dos bancos nos lucros na concessão de crédito. Porém, como os bancos repassam os custos aos tomadores, tudo se passa como se houvesse um imposto sobre as operações de crédito.
G&N: Qual sua visão sobre impactos da contínua expansão de crédito no País e a influência sobre as empresas?
Gustavo: Não vejo nada de negativo. Ruim era viver em um País onde o crédito era 20% do PIB e os juros duas vezes maiores do que hoje. E será melhor viver com juros de 5% e crédito igual a 80% do PIB.
G&N: O que o governo deve fazer para dar fôlego às empresas diante da alta carga tributária e do cenário econômico que atrai competidores internacionais?
Gustavo: Deve equilibrar suas contas a fim de permitir que os juros sejam de primeiro mundo. A solução deve ser genérica e nunca seletiva.
G&N: Ainda há espaço para a criação de novos tributos no Brasil, recurso utilizado pelos governos para tapar rombos na arrecadação?
Gustavo: Sempre vai existir, e vai acontecer se prevalecer esse viés pró-gasto que existe na nossa sistemática de orçamento e a mentalidade pseudokeynesiana, segundo a qual quanto mais gasto público melhor.
CDL – Câmara de dirigentes lojistas de Cascavel 

